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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Santa Fé x São Bernardo

Texto de Vitória Lima


“Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. A arte é sangue, é carne. Além disso, não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.” 

Graciliano Ramos
 
Com esta citação, Margarete Solange Moraes, escritora de Natal, RN, dá início ao seu romance “Santa Fé” (Mossoró, RN: Sarau das Letra, 2014).
A admiração da escritora pelo autor alagoano vai se delineando aos poucos na narrativa, a partir dos títulos das obras. Ambos os romances (“Santa Fé” e “São Bernardo”) referem-se às propriedades rurais nas quais se desenrolam as respectivas ações. No romance de Margarete Solange temos como protagonistas a professorinha Jaqueline e o dono de terras Seu Ricardo, que em muito se assemelham aos protagonistas de Graciliano Ramos em “São Bernardo”: a professora Madalena e o também dono de terras Paulo Honório. Os conflitos desenvolvidos pela trama, a luta pelo poder dentro da relação, são claramente delineados tendo o romance de Graciliano no background. Esta comparação é mesmo explícita e muitas vezes “São Bernardo” é citado pelos protagonistas de Margarete Solange. Seu Ricardo, como Paulo Honório, é um homem autoritário, sisudo, de barba fechada, mãos ásperas e segue à risca o modelo do “Byronic hero”, o herói bairônico, que tem como inspiração o herói Heathcliff, protagonista do romance “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë. Aliás, este modelo de homem rude ainda hoje exerce grande atração sobre a imaginação feminina, haja visto um personagem recente, o Capitão Herculano da novela “Cordel Encantado” da Rede Globo, que tanto impressionou o público feminino.
Mas a autora Margarete Solange faz questão de atualizar sua trama e questiona o desfecho dos romances vitorianos, ou mesmo de alguns mais modernos, mais desconectados com a revolução das mulheres. Em trecho metalinguístico, perto do desfecho da sua obra, ela diz:

Nada acontece num romance sem que o autor consinta [...] Sei que se ela (a sua própria narrativa) fosse escrita por um romancista de outros tempos, ele certamente incluiria os capítulos finais narrado a morte do personagem principal [...] Vendo por outro lado, seria até interessante que, nas narrativas atuais, o homem saísse de cena para que o destaque ficasse com a mulher. Esse desfecho seria assim como que um retrato de minha época: a mulher ganhando espaço, superando a fragilidade, mostrando ser capaz de liderar, firmando-se nos próprios alicerces, sem ser necessariamente amparada pelo braço masculino. Noutros tempos, quase sempre era a heroína quem morria no final da história. (Santa Fé, pp. 157-158).

Embora muito se questione ainda hoje a relevância da questão da autoria feminina versus a masculina, considero que nos dois romances em questão a autoria e a escolha dos respectivos narradores determinam o desfecho da trama. Em “São Bernardo”, o personagem Paulo Honório é também o narrador da sua própria história:

Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo tem-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.  (São Bernardo, Rio: Record, 1979, p. 12).
Em “Santa Fé”, a narradora é a própria protagonista, Jaqueline, uma jovem de 25 anos, em busca de sua realização pessoal e profissional. A autora não tenta esconder as fraquezas de sua heroína/narradora, apresentando-a, às vezes, como uma pessoa calculista e, como ela mesmo se define, “esperta”. Muito diferente da indefesa Madalena de Graciliano. Esta “esperteza” a impede de cair em depressão ou entregar-se ao desânimo quando vê seus planos caírem por terra. Pelo contrário, aos poucos ela vai conquistando os corações mais empedernidos que a cercam e mesmo o seu selvagem marido termina sendo “domado”. Ela consegue aplacar o seu ciúme (lembro aqui que Seu Ricardo, como Paulo Honório, é um homem rude, mais velho e, às vezes, sente-se diminuído perante a mulher, mais jovem e instruída, com um diploma de professora  e,  por isso mesmo, com um melhor domínio das palavras). A aparência pouco cuidada dos dois personagens masculinas contribui para que se sintam inseguros quanto ao amor de suas esposas, mais jovens, educadas, delicadas, cultivadas. É interessante observar também a ênfase que os dois autores põem sobre as mãos desses personagens: ásperas, calejadas pelo trabalho no campo. No caso de Paulo Honório, grandes e cabeludas, o que as torna até um pouco assustadoras: mãos de ogro. Mas o parágrafo final de “Santa Fé” não deixa dúvidas quanto ao acordo celebrado pelo casal, que consegue superar as diferenças e viver em harmonia. E é também interessante observar que a mulher passa a cuidar das mãos do marido com cremes e massagens, uma atitude simbólica que a ajuda a conquistar-lhe a confiança. O pragmatismo e o interesse, que tinham antes aproximado Jaqueline e Seu Ricardo, transformam-se em afeto verdadeiro, em confiança mútua:
A partir de então, procurei passar mais tempo ao lado do meu marido. Ele aproveitava para me ensinar a administrar todos os negócios que mantinha nos limites da fazenda Santa Fé.  (Santa Fé, 2014, p.162).
A chave de tudo está na escolha dos narradores, no ponto de vista adotado por cada escritor: Margarete Solange, escritora contemporânea que se identifica com as questões relativas à luta das mulheres, escolhe uma figura feminina que melhor se aproxima de suas simpatias, como narradora. Já Graciliano, um nordestino às antigas, elegeu como narrador um homem, que bem representa os homens rudes e secos com quem conviveu no Nordeste alagoano.  








Vitória Lima,
Escritora Brasileira: 
Professora de Literatura e Poetisa.
Autora de Anos Bissextos (1997)
 e Fúcsia (2007).
O texto Santa Fé x São Bernardo
foi publicado no Jornal "A UNIÃO"
2º Caderno - Vivências
João Pessoa, Paraíba, 2015
 Quarta-feira, 1 de abril, página 6.

http://issuu.com/auniao/docs/jornal_em_pdf_01-04-15