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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Retrato Aparente

Margarete Solange
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Ninguém sabe de mim, ninguém!
Nem eu mesma sei se é verdadeiro
Esse rosto escrito no espelho.
Talvez eu não seja assim,
Como ele pensa que eu sou.
Tão somente mostra meu rosto aparente,
Não pode mostrar um retrato
Do avesso do meu ser.
Para cada momento,
Tenho um jeito diferente de me comportar,
Mais de um tom de voz,
Infinitas maneiras de olhar
E enxergar as coisas.
Em certas ocasiões, oferto o melhor de mim;
Noutras, entrego-me às minhas imperfeições.
Nem sempre agrado, bem sei:
Não depende só de mim...
Uso a distância para me proteger
Das diferenças individuais.
Sou parecida com tanta gente:
Uma combinação de bondades
E outras qualidades que
Nem sempre são virtudes.


Fonte: Margarete Solange. Inventor de Poesia: Versos Líricos.
Queima Bucha, 2010.

Agora responda: Você também é assim?
Às vezes oferta o melhor de si, noutras se entrega as sua imperfeições?
Você concorda que as pessoas são uma combinação de bondade e outras qualidades que nem sempre são virtudes? Queremos saber sua opinião, porque aqui neste nosso estimado bloguinho, sua participação através do seu comentário é fundamental.

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sábado, 25 de setembro de 2010

De Lobos e Cordeiros

Conto de Margarete Solange

Chamava-se José Márcio Toledo, conhecido pelo nome de Cordeiro. Isso desde bem pequenino. A mãe foi a responsável pela mudança do nome do menino. Ela costumava introduzi-lo nas suas conversas, dizendo:
– É um cordeirinho, meu filho. Não dá trabalho.
Filho mais obediente que o dela não poderia haver no mundo, ela garantia. Assim sendo, com o compromisso de não desapontar a mãe, o menino procurava ao longo dos anos ser exatamente como ela dizia que ele era: uma criatura de virtudes superiores às dos outros. A calma, obediência e lealdade de Cordeiro tinham que ser mencionadas sempre. Para a mãe coruja, o seu cordeirinho não tinha defeitos.
Cordeiro tornou-se um rapaz cobiçadíssimo pelas jovens solteiras de sua vizinhança. Por fim, casou com Francismara, filha de seu Francisco e dona Mara. Moça de tipo bem comum, nenhuma de suas virtudes se aproximava dos padrões de perfeição. Se a mãe de Cordeiro ainda fosse viva, com certeza não aprovaria essa união.
Francismara não era baixa, nem alta; não era feia, mas também não ganharia nenhum concurso de beleza. Não tinha uma inteligência privilegiada, mas também não era modelo de estupidez. A princípio, trajava-se com modéstia; todavia, depois que Cordeiro recebeu a herança deixada pelos avós maternos, ela passou a investir na aparência pessoal. Continuou tudo na mesma, já que, por alguns, ela era citada como modelo de elegância, enquanto, para outros, não passava de uma perua, uma pobretona que melhorara de vida e queria impressionar.
Cordeiro ficou meio surpreso com a mudança; contudo, como aprendera desde pequeno a ser manso e submisso, não deu nenhuma palavra sobre o assunto. Já que Francismara estava feliz com seu visual carregado de maquiagem e joias, para que reclamar?
Resolveram vender os sítios que Cordeiro havia herdado nos arredores da cidade. As terras eram boas e extensas. Valiam o preço que Cordeiro pedia. A verdade é que, vender muitas terras em cidadezinha do interior não é tarefa fácil.
Aconselharam Cordeiro a baixar preço. Ele imediatamente se convenceu de que esse seria o melhor caminho para resolver esse negócio. Ao comunicar sua decisão a Francismara, ela não concordou.
– Deixa de ser tolo, Cordeiro. Não é assim que se faz negócio, homem. Parece que não tem opinião própria. As pessoas vêm e dizem que isso ou aquilo é melhor, então você imediatamente acha que é mesmo. Para com isso. Se as terras valem o preço que você pediu por elas, é só aguardar que alguém vai reconhecer isso e pagar.
– Mas Francismara, é muito dinheiro. Quem tem essa dinheirama toda não quer investir em terras, não.
Francismara bem sabia que o marido estava tão somente repetindo o mesmo discurso que ouvira de algum colega de trabalho. Agora ia teimar com ela até deixá-la bastante chateada. Depois ficaria todo sentido pelo fato de ela discutir com ele por causa dessas pequenas coisas.
– Presta atenção, Cordeiro, porque eu não quero ficar repetindo a mesma coisa um montão de vezes até convencer essa sua cabeça dura. Você diz o seu preço e espera que os interessados façam suas contrapropostas, certo? Então, você vende as terras para aquele que fizer a proposta mais vantajosa, ou seja, para aquele que mais se aproximar do que você está pedindo.
Cordeiro teimou, insistindo que sua ideia era melhor. Aliás, a teimosia era-lhe também uma característica bem marcante da personalidade. Depois de muita reclamação, por parte da mulher, resolveu fazer do jeito que ela queria. Não porque estivesse convencido de que ela tinha razão, ele jamais achava que estava errado, mas tão somente porque se achava um marido muito bom, e não gostava de confusão.
O plano funcionou. Cordeiro ficou orgulhoso de “sua” esperteza. Contava para todo mundo o seu plano de manter o preço e ouvir as propostas dos compradores.
– Muito interessante esse Cordeiro – pensava Francismara – eu tenho as ideias, faço a maior briga para conseguir convencê-lo a acatá-las, então, se a coisa funciona, é ele quem recebe as honras.
Estava tudo certo. Um desconhecido vindo de um outro estado fez-lhe uma boa proposta. Era menos do que Cordeiro pedia, porém mais do que os outros ofereciam. Fecharam o negócio pelo telefone. Cordeiro e a mulher sentiram-se satisfeitos.
No dia seguinte, Cordeiro e o comprador foram ao cartório, a fim de darem entrada na transferência da escritura das terras.
Ao meio-dia, quando Cordeiro chegou em casa, foi contar detalhadamente tudo que havia se passado no cartório. Ele, o comprador e o tabelião fizeram um acordo entre si, para colocarem na escritura que as terras tinham sido vendidas pela metade do valor real que Cordeiro iria receber por elas.
Francismara cismou. Achou logo que era esperteza do comprador. Com certeza ele pretendia pagar somente o que estava registrado no papel.
– Mas, minha filha, esse comprador pareceu-me um homem muito honesto. E pra falar a verdade, foi o próprio tabelião quem sugeriu esse preço, assim Lobo não vai pagar um absurdo de IPTU...
– Quem? – indagou Francismara com olhos arregalados.
– Armando Lobo. É o cara que vai comprar as terras...
Agora foi que Francismara ficou mais desconfiada ainda. Fez uma tremenda confusão. Cordeiro, coitado, sentiu-se tremendamente injustiçado, afinal que culpa tinha ele se o sobrenome do cara era Lobo? Poderia ser Pinto, Bezerra, Coelho, Formiga, Camelo, Raposo... opa, Raposo, não! Com esse sobrenome sua mulher também implicaria.
Para tranquilizar a mulher, telefonou para o comprador e exigiu-lhe o pagamento em dinheiro, antes de assinarem a papelada. O homem concordou imediatamente. Muito gentil, disse que Cordeiro estava coberto de razão, afinal, ele era um desconhecido, era bom mesmo que fizessem as coisas do jeito que elas deveriam ser.
Desligou o telefone, sentindo-se ainda mais convicto da integridade de Armando Lobo.
– Você é muito desconfiada, Francismara...
– E você confia demais nas pessoas, Cordeiro. Por isso passa-se por tolo. Minha mãe sempre dizia que é melhor confiar desconfiando.
Ora, Francismara achava que era muita coincidência aquele contraste de nomes. Assim, a cada vez que o marido telefonava para o comprador, e ela o ouvia dizer: ‘Lobo, aqui é Cordeiro’, seus maus pressentimentos aumentavam ainda mais.
Repentinamente, Francismara adoeceu. Ficou de cama, com febre alta. Delirava vendo cenas em que o tal Lobo trapaceava seu marido Cordeiro. Tiveram que adiar as negociações.
O médico diagnosticou que a paciente estava à beira de um colapso nervoso causado por preocupações excessivas.
Resolveu contar toda a história ao médico. Além da história real, argumentou também sobre todas as possíveis ciladas que o tal Lobo poderia estar armando contra Cordeiro.
O médico achou a coisa um tanto quanto cômica, e até deixou escapar alguns risinhos. A cara que ele fez poderia ser traduzida por “mulher tem mesmo uma imaginação muito fértil”. Bom, já que precisava ajudar sua paciente a restabelecer a saúde, aconselhou a Cordeiro que procurasse agir com prudência. Afinal, a prudência é uma excelente virtude. Além disso, ele não tinha motivos nem para confiar, nem para desconfiar do desconhecido comprador.
– Mais prudente do que tenho sido, doutor? Ora, foi ela mesma quem disse que eu vendesse a quem oferecesse mais...
– É, eu disse mesmo. Só que eu jamais iria prever que o cara se chamava Lobo. Pra falar a verdade, doutor, não é bem o fato do outro se chamar Armando Lobo que me preocupa. O problema mesmo é mais essa coisa do meu marido se chamar Cordeiro. Desde pequeno que ele acaba sendo trapaceado de alguma forma. As pessoas vendem algo pra ele garantindo que é coisa de boa qualidade. Ele, então, imediatamente acredita só pelo fato do vendedor ser um antigo conhecido, pessoa muito religiosa, alguém com cara de honesto, ou coisa parecida. Por causa disso, ele já andou caindo no conto do vigário várias vezes.
– Entendo... É isso mesmo. Sr. Cordeiro, uma experiência ajuda a outra. Já leu a fábula O Lobo e o Cordeiro?
– Mas é claro!
– E então, o que achou?
– Sei lá. Nem me lembro direito dessa estória. Mas parece que o Lobo estava arranjando desculpas para devorar o Cordeiro...
– Eu achei que o Cordeiro foi muito ingênuo – disse Francismara intrometendo-se na conversa. – Em vez de ficar argumentando com o Lobo, ele deveria ter ido embora... Também achei que faltou uma mulher na história... Se o Cordeiro fosse uma mulher teria percebido imediatamente as más intenções do Lobo.
O doutor apenas esboçou um risinho tímido. Achava sua cliente um pouco encrenqueira. Todavia, se porventura a aconselhava a ser mais tranquila, ela dizia que a maciez do marido é que lhe provocava a irritação. O marido era do tipo que nunca se estressava com nada; no entanto causava estresse nos outros com seu jeitão maçante e teimoso.
Nos dias em que a mulher esteve doente, Cordeiro refletiu bastante sobre a venda de seus sítios. Se Francismara estivesse certa, o comprador poderia até ter um plano para trapaceá-lo; porém se ele desistisse do negócio e o tal Lobo fosse mau? Poderia querer vingar-se tirando-lhe a vida ou coisa parecida. Assim, seria bem melhor que a perda fosse mesmo material.
Nesse ponto, marido e mulher estavam de acordo. Na sexta-feira, três dias depois do combinado, estavam todos no cartório. Mesmo carregada de preocupações, Francismara caprichou no visual. De uma maneira ou de outra, impressionou aos que estavam presentes no recinto. As funcionárias deram uma paradinha nos seus afazeres para dar uma espiadinha. Discretamente cochichavam entre si. No entanto, não deu para distinguir se os comentários eram de aprovação ou desaprovação, as mulheres são muito imprevisíveis.
Às quatro e quarenta da tarde, Cordeiro conferiu o pagamento das terras vendidas. Tudo certo. Colocou o dinheiro dentro da valise que trazia consigo. Francismara ao seu lado, pernas cruzadas, óculos escuros. Parecia autoconfiante, mas na verdade estava tensa. Não tinha certeza nem se estava agradando com seu visual, nem se aquele negócio iria terminar bem, sem problemas.
Encerrada a negociação. Apertaram-se as mãos e saíram em direção ao estacionamento. Surpresa: o carro de Cordeiro estava com os quatro pneus baixos.
– Eu não disse, Cordeiro! – cochichou Francismara. – Deve ser o plano para te pegar.
Nem deu tempo para que Cordeiro pensasse alguma coisa, surgiu Lobo, com voz grave, cheio de gentilezas.
­– Ih, rapaz, já sei o que foi isso. Na terça-feira, quando estacionamos aqui, o flanelinha te pediu dinheiro e você não deu, certo?
– Isso mesmo. Eu tava sem trocado.
– Pois é, já fizeram isso comigo uma vez. Entra aí. Eu te dou uma carona.
Francismara não queria aceitar. Argumentou que iam para lugares extremos. Como Lobo insistisse, Cordeiro acabou aceitando, contrariando a vontade da mulher. Se entreolharam: ela com cara sisuda, estava pensando:
– Ingênuo, esse Cordeiro!
Ele colocou a mão no ombro da esposa como se quisesse dizer:
– Não esquenta, baby!
Se pelo menos o banco estivesse aberto, mas não estava. Além disso, Cordeiro era teimoso além da conta. Com seu jeitinho manso de quem não quer confusão, teimava até as pessoas se irritarem ou serem vencidas pelo cansaço. Melhor mesmo era Francismara entrar no carro e pensar numa outra saída.
– Que tal um brinde! – sugeriu Armando Lobo.
– E por que não, uma vezinha assim, não faz mal nenhum, não é mesmo, querida?
Ora Cordeiro nem sequer bebia. Francismara estava pra lá de furiosa. Ergueu uma das sobrancelhas em sinal de reprovação. Se estivessem sentados a uma mesa lhe teria dado uma pisada no pé. Mas ali no banco de trás do carrão luxuoso do tal Lobo, não tinha como fazer o marido entender que tudo que ela queria era escapar dali. Permaneceu calada; enquanto Cordeiro seguia num blá-blá-blá sem fim, fazendo propaganda de suas qualidades. Não havia no mundo alguém mais calmo, organizado, prevenido, etc.
Lobo, com seu porte sério e charmosão, apenas ouvia. Regulou o retrovisor, viu a cara de entediada que Francismara estava fazendo. Ao perceber que estava sendo observada, sutilmente mudou de lugar. Cordeiro, tipo acanhado, franzino e desprovido de beleza, continuava tagarelando, segurando no colo a valise onde carregava o dinheiro da venda de suas terras.
– Você foi esperto, Lobo, fez um excelente negócio, parabéns. Aquelas terras são boas. Tudo que planta dá. Além disso o preço tava bom...
Prosseguiu tagarelando, sem parar. Enquanto Francismara pensava:
– Engraçado, em casa diz que não conversa porque não tem assunto. Agora fica aí se desmanchando em tolices.
– É, parece que seu marido é mesmo muito cheio de virtudes – comentou Lobo tentando envolver Francismara na conversa. Ela, porém, fez que não ouvia.
– ...Só não sou muito bom em negócios. Nisso minha mulher é mais esperta que eu. Sou meio ingênuo e as pessoas acabam me trapaceando... blá- blá-blá...
– Conheci um restaurante na saída da cidade – falou Lobo novamente. – Uma beleza! Podemos tomar um drinque e em seguida pedir o jantar. Vocês são meus convidados.
– Por mim tudo bem – virou-se para o banco de trás do carro. – Que acha querida?
Ela sabia até qual era o restaurante. Muito agradável, por sinal. Porém, como estava com a ideia fixa de que o comprador estava seguindo um plano para trapacear Cordeiro, tratou de pensar numa estratégia cinematográfica para a fuga.
Foi nesse instante que, para sua alegria, do outro lado da estrada ela avista Nivaldo, um grande amigo de Cordeiro. Num impulso, coloca a cabeça para fora da janela do veículo e grita a plenos pulmões:
– Nivaldooooooooo!
Nivaldo parou o carro, imediatamente.
– Ei, seu Lobo, para aí o carro, por favor. A gente fica por aqui. Lembrei que tenho um compromisso inadiável.
Nem bem Lobo parou no acostamento, Francismara saltou do carro. Acenou-lhe, muito simpática:
– Obrigada aí pela carona.
Atravessou a estrada equilibrando-se desajeitadamente em seus sapatos altíssimos. Por essa nem Lobos nem Cordeiros esperavam.
– É melhor eu ir com ela, sabe como são as mulheres...
– Tudo bem, – concordou Lobo – fica pra próxima.
Cordeiro queria ir direto pra casa, mas Francismara, muito chateada, disse que ele não se atrevesse a discordar dela naquele momento: iriam passar a noite em casa de Nivaldo. Lá estariam seguros. Ninguém saberia onde encontrá-los, além disso a mansão do amigo tinha muros altíssimos, guardados por cerca elétrica e três cachorros pra lá de ferozes. No dia seguinte, sairiam disfarçados e depositariam o dinheiro no banco.
Nivaldo, ao saber de toda a história, achou que tudo era apenas cisma de Francismara, porém era do tipo que acreditava que é melhor prevenir do que remediar. A mulher de Nivaldo, uma criaturinha muito sensível, que facilmente se impressionava com certos acontecimentos, ficou falando num blá-blá-blá sem fim, dizendo coisas do tipo:
– Gente que perigo! Que bom que vocês escaparam com vida! Nivaldo salvou a vida de vocês...
            Cordeiro, por sua vez, não tinha a menor paciência com a mulher do amigo. Achava que ela falava besteiras demais. Vez por outra comentava com Francismara:
– Não sei como é que Nivaldo aguenta aquela mulher!
Depois do jantar, sentaram-se na sala de TV. Cordeiro, então, muito satisfeito, trouxe a valise com o dinheiro para conferir novamente, diante do amigo. Tremenda surpresa: o pacote com o dinheiro havia su-mi-do. O homem ficou branco como uma folha de papel.
– Essa não, o dinheiro sumiu! – pronunciou com grande espanto.
– Sumiu?! – indagaram os presentes.
– Sumiu, como? – quis saber Nivaldo.
– Sumindo, ora, sei lá como...
Francismara, com cara de quem estava bastante chocada, correu para o quarto de hóspede, sem fazer qualquer confusão. Dá para acreditar? Cordeiro ficou mais angustiado ainda. Melhor seria se ela tivesse agido normalmente; afinal de contas, já estava acostumado a levar broncas na presença do amigo Nivaldo e de sua mulher. Uma a mais não faria a menor diferença.
– Surpresa! Olha onde está o dinheiro – gritou Francismara, agitando sua bolsa no ar.
– Na sua bolsa?
– Pois é ...
– Mas como pode ser isso se não me descuidei dessa valise um só instante?
– Tenho lá minhas espertezas.
A verdade é que ninguém percebeu o momento em que Francismara fez a transferência do dinheiro para sua bolsa. Se foi dentro do cartório, nem o tabelião viu, os funcionários muito menos. Se foi no estacionamento ou durante o trajeto enquanto seguiam para o restaurante na saída da cidade, nem Lobo nem Cordeiro lhe perceberam a sutileza. O marido até insistiu que ela contasse como conseguira realizar tal façanha, mas isso ela não conta de modo algum. Disse que uma mulher verdadeiramente esperta jamais revela os seus segredos.
Cordeiro ficou satisfeito com a explicação da mulher. Era melhor não insistir, para evitar confusão. Nivaldo, porém, ficou muito preocupado com o amigo. Achou que ele só não se deu mal nessa história tão somente porque Francismara não tinha planos de fugir com alguém. Se tivesse, evidentemente, ele não veria o pacote com o dinheiro nunca mais. Estava ficando cheia de artimanhas, a mulher do amigo: precisava avisá-lo para tomar cuidado. Se pelo menos Cordeiro aprendesse a lição. Entretanto, parecia que quanto mais era enganado mais tolo ele ficava.
Conversa vai, conversa vem, Francismara resolveu se exibir, dizendo novamente que na Fábula O Lobo e o Cordeiro faltou a participação de uma mulher. Desta vez, o marido nem teimou, concordou, todo sorridente. Nivaldo, pensativo, assim como quem não quer nada, fez o seguinte comentário:
– Talvez sim, talvez não. A presença feminina até que torna a trama mais excitante, mas o que faltou realmente na fábula foi um amigo sincero para avisar ao cordeiro que ele não deveria confiar tão cegamente nas pessoas, principalmente se tiver mulher na história. Mulheres astutas são mais perigosas que os lobos.
Nem Cordeiro nem a esposa de Nivaldo levaram a sério a profundeza da mensagem: acharam que era apenas mais uma piadinha machista para fazê-los rir, e então riram. Por outro lado, Francismara entendeu perfeitamente o que ele queria dizer, e riu também, caprichando na gargalhada espalhafatosa. Achou Nivaldo tão ingênuo quanto Cordeiro, por ele achar que as mulheres sonsas, aparentemente estúpidas, como a sua, não são capazes de enganar os maridos. Quanto mais ela ria, mais Nivaldo achava que ela era astuciosa. E quanto mais Nivaldo a censurava com o olhar, mais ela ria, pensando no quanto ele era tolo.

*       *      *

Fonte: Margarete Solange.
Ninguém é Feliz sem Problemas.
Fundação Vingt-un Rosado, 2009.
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Obra premiada no concurso literário
escritor Norte-riograndense:
Projeto Rota Batida III.
Fundação Mossoroense
em dezembro de 2008.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quem é ela? Adivinha!!!

Oi gente maravilhosa, o caso é o seguinte: meu filhote Leon Fernandes, o grande leão fantoche repórter desse nosso literário bloguinho enveredou pelo oficio de Inventor de Poesia, então, pediu um espaçozinho para publicar uma de suas obras de arte. Não podemos com uma negativa frustar um futuro grande artista, talvez até maior poeta fantoche de todos os tempos. A novidade é que cabe a nós, seus admiradores, sugerir o nome do poema e descobrir quem foi sua musa inspiradora. Preparados? Então, vamos em frente, aí vai o poema...


_________________?
Poesia de Leon Fernandes.....................
Adivinha quem é ela:
Bonitona e consciente
Gostosona e destemida
É mulher muito pra frente.
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Se é amigo dela
Sinta-se salvo e inteligente
Porque sendo seu inimigo
Ela pode quebrar seu dente.
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Ela fala o que pensa,
Aconselha animadora...
Se alguém se desagrada
Ela dá uma voadora.
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Ela e Aninha se parecem
Porque são tão convencidas
Elas são maravilhosas
E desfrutam bem a vida.
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Um beijo grande pra ela
Um big beijo Aninha
Duas musas inspiradoras:
Minha tia e minha gatinha.
.
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Que cara é essa querido leitor? Queremos saber sua reação, que tal o poema?! Não fique de fora, participe, descubra quem é a musa secreta, sugira um título e deixe sua apreciação literária. E se você acha que o CARA escreve bem, pede para ele fazer um desses em homenagem a você, ele trabalha por encomendas.


Big beijo de Marina e Leon.
UAAAU!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Visita ao Sítio Favela

Domingo, 12 de setembro de 2010, ao Sítio Favela, lá vamos nós. O lugar tem esse nome porque o povoado iniciou em derredor de umas árvores frondosas chamadas favelas. Foi esse o relato que nos contaram para justificar o nome do povoado. Chegamos! Três horas da tarde, sol quente, um ventinho que canta e levanta poeira nos recepciona. As crianças vem chegando com sorriso meigo, jeito amigo.  Maressa e Margarete iniciam a brincadeira com umas musiquinhas animadas, conversam com os pequenos enquanto brincam de estátua exibindo poses. Em seguida, recitam a poesia “Advinha”, os pequenos se encantam com abelhinha e puxam conversa. Nos bastidores, Rafaela anima a personagem. A vozinha meiga e engraçada provoca riso e contentamento, a garotada se diverte! É lindo ver como mergulham na fantasia. Na verdade são elas que dão vidas aos bichinhos, nós apenas incrementamos a brincadeira.
Maressa e Margarete cantam e brincam de estátua. 
Rafaela anima a personagem da abelhinha
Vovô glória e as crianças cantam...
Margarete conta história.
Na hora da partida, um coro infantil se despede gritando: “Voltem sempre”. Pelo visto, gostaram de toda turma de gente e de fantoche. Isso nos faz feliz e, como diz o poetinha, essa felicidade “é eterna enquanto dura”.

Pela estrada a fora, lá vamos nós de volta para nossa realidade de asfalto, edifícios, gente grande e corações com gradilhos e cadeados. As carinhas alegres das crianças nos segue em pensamento. O mágico ainda nos envolve. O sol mais ameno se exibe no céu: um quadro lindo! De repente, a travessia pelo meio do rio anuncia um momento de leve tensão. Opa novidades! Um rebanho de cabras nos faz esquecer o medo das águas. Parada para as fotos!


Irak saca a máquina e faz pontaria, uma das cabras para e se ergue fazendo poses. A natureza é sempre uma obra de arte. Depois dos cliques, atravessamos as águas e lá vamos nós seguindo a estrada de frente para o pôr-do-sol que dá seu espetáculo de cada dia.
A voz das crianças ainda ecoa em nossos ouvidos... A vida é assim... “feita de momentos”, como disse poeta Jorge Luiz Borges, e isso acrescento: momentos de singela beleza nos fazem esquecer as agruras da vida.

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Texto de Margarete Solange
Fotografias de: 
Jorge Luiz: apresentação de fantoches
Irak Xavier: paisagens
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sábado, 18 de setembro de 2010

A Estrela e a Pedra

Margarete Solange..........................

     Majestosa estrela,
       Ao longe pequenina.
             Em sua morada
                  Tão rica, cintila.
                     Cheia de graça,
                          Pelo mundo viaja,
                             Sempre louvada,
                                Onde quer que ela vá.
                                   A pedra, singela,
                                     Sempre parada,
                                      Quieta na areia
                                       No meio do nada.
                                        Não depende dela
                                        Ser diferente,
                                        Mas é prudente
                                        Que cumpra
                                        O seu dever,
                                       Que seja feliz
                                      Com o que pode ser.
                                    A pedra por vezes
                                  Se cobre de brilho,
                                 A estrela talvez
                              Queira ser como a pedra,
                           A pedra nem sempre
                       Deseja reinar,
                   Mas sempre sonha
               Sair do lugar.
Margarete Solange. Inventor de poesia infantil: fantoches e poesias. 
Queima-Bucha, 2010.
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Fonte: 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

HOMEM SENSÍVEL - Poesia

É o seguinte, pessoal participativo desse nosso sentimental bloguinho. Vou mostrar com gosto e com raça como é ser uma homem sensível. primeiro, reconheço que nós homens com o passar do tempo relaxamos com o romantismo e até parecemos um tanto quanto insensíveis... E por causa disso, corremos sérios riscos de perder o grande amor da nossa life, a nossa costelinha ossudinha, deliciosa. Pois é, minhas fãs, o homem parece que se assemelha mais aos animais, essa coisa de ser meio selvagem, indisciplinadão, de brigar pela posse das coisas, pelo domínio do pedaço e fazer xixi para demarcar território, é a lei da selva!
Já as mulheres são comportadas, comparadas às flores, às belas rosas: delicadas e cheirosas... Tudo bem que elas têm cada espinho enorme que às vezes até parece com a espada do Zorro e quando chateadas são ferozes como as plantas carnivoras que metem mais medo que um leão em busca de seu almoço. Flores é um lindo presente, mas as elas murcham... Bom para não desagradar com minhas filosofias Leônicas, nem magoar minhas sensíveis colegas, vou ficar somente com o lado elogioso da coisa e dizer que as mulheres são o extrato do bom e do belo e que sem elas o mundo não seria esse mesmo mundo, redondinho, colorido e organizado: seria somente uma selva completamente empoeirada, mijada e bangunçada. Viva as mulheres!!!

Tendo dito tudo isso, peço emprestado o poema “Homem Sensível” da escritora Margarete Solange, como forma de me redimir com minha ex-namorada Aninha, uma minhoca linda e maravilhosa que arrebata e arrebenta meu coração. Pra você docinho dedico:

Homem Sensível

Desejo retornar ao seu coração,
Fazer parte de sua vida novamente.
Não me diga que não.
Leia os versos que eu fiz para você:
Eu os fiz com lágrimas nos olhos.
Aprendi a escrever poemas para convencê-la
De que me tornei um homem sensível.
Quando o sol se vai, a tristeza me assusta,
Sussurrando aos meus ouvidos
Que você está distante, muito distante de mim.
Diga-me que isso não é verdade
E que ainda me quer.
O que eu fiz, para matar o nosso amor?
Eu sei o que fiz...
Não cuidei de você como deveria,
Estava ocupado demais para
Enxergar os seus olhos tristes.
Você é delicada como cristal,
E eu quebrei seu coração em
Milhões de pedaços.
Será que destruí o seu amor para sempre?
Creio que foi isso que fiz.
Mas eu prometo que serei diferente.
Perdoe-me, eu imploro, minha querida.
Dê-me uma outra chance,
Embora eu não mereça.
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Fonte: Margarete Solange. Inventor de Poesia: 
Versos Líricos. Queima-Bucha, 2010.

Bastidores:
–  Aló, Aninha?!            
– Ah, é você? Pensei que fosse...
– Deixei uma mensagem pra você no blog, 
    vá lá ver...
– Vou pensar...
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