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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Drummond e Rafa entram na brincadeira

Na postagem anterior, nosso bloguinho publicou uma poesia de Carlos Drummond de Andrade, em seguida, Leon Fernandes cria a novelinha: "Davi e o Gigante de Itabira, vale a pena conferir. E por falar em Drummond*, Rafa, representante de vendas foi ao Rio passear, porém como boa profissional, mesmo em férias, ela está sempre trabalhando. Passando pela praia de Copacabana, ela encontra Drummond sentadinho olhando quem vem e quem vai, tranquilo, tranquilo. Como quem não quer, querendo, a morena senta ao lado do escritor... e pra quê?! Para apresentar o livro Inventor de Poesia Infantil: fantoches e poesias da autora Margarete Solange. Será que ela vai conseguir vender o exemplar? Dizem que ela é meio atrapalhada, brincalhona, meio fora dos padrões do vendedor convencional que fala todo cheio de “SS” e “RR” para fazer as pessoas cairem na sua lábia. Com ela é assim: chegou, cumprimentou e pá!!!... sem demora diz a que veio. Pois é, não tem esse negócio de boa aparência e falar difícil só para ludibriar o comprador, não. Mas, o interessante disso é que as pessoas dificilmente deixam de comprar o livro que ela oferece, e tem  mais, se não pagar na hora, dias depois ela volta pra buscar o pagamento e usa a mesma tática ou seja: nada de rodeios.

Vamos conferir através da nossa novelinha como a morena conseguiu se sair como vendedora de livros enquanto turistava em suas férias na encantadora cidade do Rio de Janeiro.

Raffa diz:   Oi Drummond. Você é Drummond e eu sou Raffa, tudo bem? Muito prazer! Trouxe esse livro pra você ver.
O Poeta diz: Ôxente, o que é isso, morena, que pressa é essa, mulher?! Senta aqui um cadinho pra gente conversar.

Raffa diz : Tá bom, vamos lá. Mas antes vamos posar pra foto: sorria!!
O Poeta diz: Eu não, estou cansado de tanta fotografia, não sou modelo fográfico! Sou escritor e me interesso mesmo é pelas letras. Vamos lá, fala aí sobre o livro!

O Poeta diz:  Humm... Um cheirinho de óleo de côco. Tá usando óleo de côco do cabelo ou na axila?
Raffa diz : Nos dois, óleo de côco deixar o cabelo bem macio.
O Poeta diz: Deixa o cabelo macio e assanhado, é? Você é bem assanhadinha, hein?!
Daí como já esperava a qualquer momento ouvir um elogio do poeta, sem se concentrar no que ele disse, responde alegremente:
Raffa diz : Sou é?! Brigada!
Raffa diz : Seu elogio me deixou meio cheia de pernas...
(pois é, e que pernas, hein?!)
Raffa diz : Mas vamos lá: olha essa poesia aqui como é bonitinha... 

Raffa diz : Olha essa outra aqui, bem divertida, né?! ... E essa aqui a autora musicou  para a gente cantar com o teatro de fantoche. Vou cantar pra você ouvir...
"Não entre na briga com uma formiga
Nem na confusão com o leão"...
O Poeta diz: Você é bonitinha, morena, mas canta mal pra caramba!

Raffa diz : É, eu sei já me disseram isso antes!
Bom, vamos ficar sem saber se o que já disseram antes foi que ela é bonitinha ou que canta mal pra caramba. Penso que já disseram as duas coisa, sei porque já ouvi de perto sua cantoria.
O Poeta diz: Olha eu não vou comprar esse livro, não. A autora fez uma poesia em homenagem a Vinicius, fez outra pra Michael Jackson e pra mim, nada! Vou querer, não...
Raffa diz : Ah... vai ficar com o livro sim, ora essa! Tive o maior trabalho de ler as poesias pra você, cantei e tudo mais. Não vou levar o livro de volta, não. Fica com ele aí, nas próximas férias eu volto aqui pra buscar o pagmento. Agora sorria que vamos fazer a foto final.

Viram só, a morena é boa de vendas. Ninguém fica sem comprar os livros que ela vende, não. Além de vendedora de livros ela é professora e trabalha nos bastidores no teatro de fantoche animando os bichinhos que acompanham a escritora Margarete Solange aqui alí e além. Big bj da Marina.

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*Veja no

http://nossoliterariobloguinho.blogspot.com/2011/02/dados-biograficos.html#comments

 "Davi e o Gigante de Itapira" novelinha de Leon Fernandes.

Vale a pena conferir!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Davi e o Gigante de Itabira

Para quem ainda não conhece muito sobre Drummond vamos dar uma lidinha nos seus dados biográficos em fonte fidedigna, ou seja, fornecida por ele mesmo no poema a seguir. Depois disso você vai facilmente descobrir quem é o gigante de Itabira da nossa brincadeirinha.

Dados Biográficos
poema de Drummond
Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar?
Que ele é meio pateta
E não sabe rimar?
Que veio de Itabira,
Terra longe e ferrosa ?
E que seu verso vira,
De vez em quando, prosa?
Que é magro, calvo, sério
(na aparência ) e calado,
com algo de minério
não de todo britado?
Que encontrou no caminho
Uma pedra e, estacando,
Muito riso escarninho
O foi logo cercando?
Que apesar dos pesares
Conserva o bom-humor
Caça nuvens nos ares,
Crê no bem e no amor?
 
Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar
Em linguagem discreta
Que lhe saiba agradar?

Fonte: Andrade, Carlos Drummond. 
Viola de Bolso II. 1955.

Agora pessoal, que tal uma novelinha pra ilustrar a página? Uma novelinha propriamente, não. Vamos apresertar uma mini-série. cujo título é:


Davi e o Gigante de Itabira


As cenas se passam no Rio de Janeiro. Cidade que é também gigante em belezas. Pois é, as pessoas que passam por lá sempre se dizem encantadas. E passando pela praia de Copacabana sempre encontram o grande Drummond sentadinho olhando quem passa pra lá e pra cá. Eu se fosse ele ficaria olhando pra o mar, mas se ele prefere observar pessoas... Coisas de escritor!!! O fato é que ele está sempre por lá, não perde uma praia. Quer dizer só não estava no dia que Maressa e Maely foram ao Rio. Eu não sei o que foi que contaram pra ele sobre elas, só sei que as meninas percorrem a praia inteira e não viram o poeta em lugar nenhum. Enviamos então o repórter Davi para fazer uma matéria sobre o caso e ele ficou tão envolvido em imitar o Drummonzão que até se esqueceu de sua missão especial.


– Ei você aí que é mais um tentando me imitar... 
Saiba que imitar é fácil, difícil é ser Eu!
– Pôxa, isso quer dizer que a imitação ficou boa?! Na verdade,  ficou idêntica, perfeita e coisa e tal, confesse?!
– Mas é claro que não! Para ficar parecido você ainda vai ter que crescer muito!

– O que isso seu Drummond até o senhor tá me chamando de baixinho?! Num vale xingar, não, rapá,  isso é golpe baixo!
– Ih, foi mal, pensei que a luta fosse vale tudo. Está bem, Na estatura vamos declarar empate, porém nas letras eu sou o gigante de Itabira e você é o pequeno Davi, aquele que atirou a pedra bem no meio do meu caminho. Fechado?!
– Valeu!!
.  .  .


Você já sabia que havia uma pedra bem no meio do caminho, não é? Agora sabe como ela foi parar lá. (risos)





Fotografias: Rafaela Medeiros
gentilmente cedidas por Davi Morais

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fábula de Marina

Ao postarmos a fábula de Esopo “A Cabra e O Asno”  alguém comentou dizendo que seria interessante que houvesse uma fábula envolvendo um leão e uma minhoquinha. Ora, isso é claro e bem evidente que foi  uma indireta diretissíma para os dois personagens máximos e divertidos desse Nosso Literário Bloguinho Leon e Aninha. Pois é, e como aqui somos todos abelhudos, criei a fábula e vou postá-la dizendo que fazemos isso para atender inúmeros pedidos. Aprendam isso, pessoal, exagerar é uma arte, além disso, a pessoa que deu essa idéia é tão valiosa que vale por muitas. É isso aí!! Querida Nadijane, sua idéia está indo ao ar, ou melhor, está indo ON, neste exato momento.

O Leon e a Minhoca Aninha

Fábula de Marina

Viviam num mesmo blog um Leon e uma Minhoquinha. Os dois tinham uma participação muitíssimo interessante, e cada dia crescia a popularidade da dupla de dois. De repente Aninha a minhoquinha se tornou mais solicitada que  Leon. Ele então pensou que se a minhoquinha deixasse de brilhar, ele voltaria a ser o único personagem paparicado do Literário Bloguinho. Teve um plano: Disse a Aninha que ela era tão importante que com certeza tinha direito a uma terça parte do  bloguinho, e que ela deveria reivindicar esse direito falando com a administradora. Tão logo soube disso, Maressa pensou: “Ora se Aninha que chegou depois acha que tem direito a uma terça parte do bloguinho, Leon que está conosco há mais tempo certamente irá pedir dois terços". Assim sendo, demitiu os dois. Hahahaha!!!!
Moral da história: Leon jamais faria isso com Aninha, e Maressa jamais faria isso com os dois! Porém, como Nadijane, deu a idéia, resolvi executar fazendo uma paródia da fábula “A Cabra e o Asno” postada na página a seguir

http://nossoliterariobloguinho.blogspot.com/2011/02/cabra-e-o-asno.html

Viram só?! Aqui nada se perde, tudo vira postagem!!!
Grande beijo da Marina


Revisão: Jorge Davi

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Desabafo de um Bom Marido

Queridas meninas desse Nosso Literário Bloguinho, vejam a seguir o texto machista e desaforado, porém inteligente e divertido de Luis Fernando Veríssimo. E sabem de uma coisa? Meu marido é que trouxe do trabalho para ler pra mim. Ele lia com tanta empolgação que parecia que ele próprio o tinha escrito palavra por palavra. Ele parecia estar naquele momento desabafando o que tinha guardado em silêncio durante anos e anos de convivência. Eu, sinceramente,  não me identifiquei muito com a mulher descrita na crônica, não. E pra falar a verdade essa coisa de alguém  achar que está sempre certo, achei m ais a cara dele... ahahahaha! Ele nunca acha que está equivocado, mesmo que todas as  evidencias apontem para isso, ele ainda insiste todo vitimado dizendo “Eu apenas...”. Tirando essa mania de achar que nunca está errado e a teimosia que também lhe é peculiar,  ele é um ótimo marido.
Agora, vamos ler a crônica que é largamente enviada para nossos e-mails e que é favorita  dos homens, em especial, dos maridos. Depois então decidiremos que troco vamos dar.  Avante meninas, boa leitura!!!

Desabafo de um bom Marido
Luiz Fernando Veríssimo

Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras. Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira  elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então ela disse: 'Nós temos muitos aparelhos, mas  não temos lugar pra sentar'.
Daí, comprei pra ela  uma cadeira elétrica. Eu me casei com a 'Senhora Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'. Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a  nossa última briga foi culpa minha. Ela perguntou: 'O que tem na TV?' E eu disse  'Poeira'.  No começo  Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o  homem e descansou.  Depois, criou a mulher.  Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o mundo tiveram mais descanso.   Quando o nosso cortador de grama quebrou,  minha   mulher ficava sempre me  dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão,  o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais  importante para mim. Finalmente ela pensou  num jeito esperto de me convencer.
Certo dia, ao chegar em casa,  encontrei-a sentada  na grama alta, ocupada em  podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em  casa.  Em alguns minutos eu voltei com uma  escova de dente e lhe entreguei. 

- Quando você  terminar de cortar a grama, ' eu disse, 'você  pode também varrer a calçada. '
Depois disso não me lembro de mais  nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas  mancarei pelo resto da vida'.  'O casamento é  uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa  e a outra é o marido...

Bom, meninas, tenho uma ótima idéia para darmos o troco aos nossos mui amados maridinhos. Vamos postar a seguir o Conto “O Outro Homem” da autora Margarete Solange.  Os homens não vão gostar nada nada dessa nossa revanche. A autora tem recebido algumas reclamações de maridos que se acharam injustiçados  por não se identificarem com o marido descrito no conto. Pois sim, existem tantas piadinhas que nos ridicularizam e nós não nos identificamos, mesmo assim eles dão prazerosas gargalhadas quando lêem uns pro outros. É isso aí, meninas, se não nos vemos refletidas nessas piadinhas machistas que passam de email a email, a hora de dizer é agora, mas é claro que com muita elegância, classe e fineza, porque é assim que somos. Não nascemos unicamente para tirar poeira de cima da TV, tampouco para ficarmos coitadinhas cortando grama com uma tesourinha de costura para sensibilizá-los. Se eles não querem consertar o cortador de grama, e deixam a grama crescer em volta da casa é sinal que são péssimos donos de casa. Pois é, e isso pode fazer com que suas mulheres passem a olhar e apreciar a grama do vizinho. ahahaha.
A verdade é que nós mulheres somos românticas e queremos paz, mas isso não nos impede de darmos um troquinho de vez em quando. Parabéns, Sr. Veríssimo pelo texto divertido, e receba com carinho a revanche dada através do conto “O Outro homem”. é só acessar o link a seguir...
* Acesse nossa página
e leia o conto  “O Outro homem”.

O Outro Homem

Conto de Margarete Solange


Recomendo aos maridos que não leiam este conto para não correrem o risco de descobrir que existe um outro homem na vida de suas mulheres. Até pensei em intitulá-lo: “Proibido para Homens”; no entanto, se fizesse isso, a coisa seria muito pior, pois aguçaria ainda mais a curiosidade masculina. Bom, se teimarem em lê-lo, espero que não resolvam dar a revanche, uma vez que, se o fizerem, nós mulheres estaremos em maus lençóis. Com certeza nos lançariam em rosto algo como as palavras bíblicas que dizem que não se deve apontar o argueiro dos olhos nos outros, quando uma enorme trave nos impede de enxergar com nitidez.
            Esta narrativa baseia-se na mistura da conversa de várias mulheres que, juntas num feriado prolongado, observavam os seus maridos jogando futebol na beira da praia, ao mesmo tempo em que comentavam sobre o quanto as coisas haviam mudado desde os primeiros tempos de casadas até o presente.
Veio-me a ideia de juntar tudo numa história só. É divertido exagerar uma vez ou outra. Aprontei o conto numa única noite enquanto, pacientemente, aguardava a chegada do sono. No dia seguinte, achando que tivera uma brilhante ideia, fui lê-lo para o meu marido ouvir. Resultado: ele detestou. Disse-me todo ressentido:
– Todo mundo vai pensar que a narradora desse conto é você e que o marido sou eu.
Com uma falsa ingenuidade indaguei:
– Será?
A verdade é que os leitores sempre acreditam que o eu-narrador e o autor são a mesma pessoa. Fazer o quê? Afinal, escrever usando a primeira pessoa torna a narrativa muito mais convincente. Acontece também que, algumas vezes, a história é realmente autobiográfica. E mesmo que não seja, creio que há sempre um pouco do autor presente na trama e nos personagens...
Bom, agora sem mais rodeios, vamos ao conto.
Era tarde. Todos na casa dormiam. Do lado de fora, o vento forte açoitava os coqueiros, trazia aos meus ouvidos o envolvente barulho do mar. O meu marido, ao meu lado, roncava alto. Isso não me incomodava nem um pouco. Acho até que devo roncar também. Não tenho certeza, porque nunca me observei dormindo e, pelo menos sobre isso, ele jamais se queixou. Talvez até porque sempre adormece antes de mim.
Sentei-me na cama e acendi a lanterna com cuidado, para não perturbá-lo. No instante em que acidentalmente a luz focou-lhe o rosto, pus-me a observá-lo atentamente.
– Céus! Não foi com este homem que me casei! – concluí surpresa. – O que este homem está fazendo deitado em minha cama vestindo o pijama do meu marido?
Os poucos cabelos que lhe restavam estavam bem curtos e bastante grisalhos. Além disso, não usava bigode. O meu marido sempre usou bigode. Essa particularidade dava-lhe um ar mais sério, másculo, enfim, um charme a mais.
Instantaneamente passei a relembrar cenas dos últimos anos. Tudo ficou bem confuso em minha mente. Afinal, quem era aquele estranho que lentamente foi assumindo o lugar do meu marido?
Quando casamos, ele gostava de minha companhia. Era terno, compreensivo. Dividia comigo certas tarefas domésticas só para não me ver presa na cozinha por muito tempo. Contava piadas engraçadas para me fazer rir e sempre comentava comigo assuntos do seu dia a dia de trabalho.
Lembro-me que, nos últimos dias, o estranho queixava-se de que eu não era a mesma com ele. Dizia que eu parecia não amá-lo mais. Agora entendo: era a estranheza de beijar um outro homem. O homem com quem casei era bem diferente. Eu sabia que algo estava errado, eu sentia isso; no entanto, não conseguia compreender a essência do problema. Todavia, no momento em que a luz da lanterna focou o rosto desse homem sem bigode, tudo ficou tão obvio.
As vozes dos dois até parecem iguais, se bem que, a do estranho que está ocupando o lugar do meu marido é um tanto irritadiça. Se algo não está indo bem, ele argumenta, até me convencer, que fui eu quem falhou em algum ponto, que sou responsável direta ou indiretamente por aquilo que deu errado. Consciente ou inconscientemente, ele procura fazer essa transferência de culpa. Tentei muitas vezes alertá-lo sobre isso, porém é quase impossível convencê-lo de seus erros.
Por que pedir desculpas é tarefa tão difícil para os homens? Com o passar do tempo, eles não nos elogiam, tampouco nos agradecem mais; somente cobram, como se tivéssemos para com eles uma eterna dívida. Mil piadinhas são feitas em defesa da classe masculina, ridicularizando as mulheres casadas: falamos demais, reclamamos demais, somos chatas, feias, desajeitadas etc, etc, etc. A responsabilidade de criar filhos quase sempre pesa somente sobre nossos ombros, enquanto os pobrezinhos carentes têm necessidade de consolar-se nos braços de uma outra qualquer. E nós não temos também necessidade de ser amadas, admiradas e compreendidas?
Durante anos e anos eu sempre achei que ele tinha razão: era eu quem precisava mudar para vivermos melhor; era eu quem estava distante dos padrões de mulher virtuosa. Ultimamente entramos em atrito por qualquer bobagem, mas no início não era assim. Encaixávamos tão bem nossos sentimentos, que eram uma combinação de amor, respeito, admiração e amizade. A verdade é que a harmonia do casamento depende muitíssimo das duas metades, o respeito e companheirismo entre marido e mulher são fundamentais para uma união saudável e duradoura. Não sei por que sentimentos tão agradáveis perderam o brilho, a cor e a fragrância.
Procuro lembrar, mas não sei ao certo dizer, quando foi que esse homem começou a dividir comigo a mesma cama. E o homem com quem casei, onde está? Refiro-me àquele que me olhava com olhos apaixonados, que fazia o meu coração acelerar sempre que gentilmente segurava minha mão e aproximava seus lábios dos meus.
Agora estou eu ao lado de outro homem: mais velho, gordo, barrigudo, meio careca e de cabelos brancos. Aprecio homens maduros, e quanto aos cabelos grisalhos até os considero um charme masculino; quanto à barriga, essa também não me causa espanto. Enfim, nenhuma dessas coisas me incomodaria se interiormente ele fosse igual ao homem com quem casei há anos.
Não sei explicar como isso aconteceu. O que sei é que nesse momento um outro homem está no lugar do meu marido, usando seus pijamas.
E agora, o que faço? Sei que, para alguns, essa troca pode até passar despercebida, mas para mim ela é tão nítida. O meu marido tinha bigode, não usava óculos e tinha um jeito terno de me tratar. Como amantes, nos entendíamos muito bem. Todavia, não era só como amante que ele me queria. Éramos amigos, conversávamos sobre todo e qualquer assunto. Apreciávamos realmente a companhia um do outro. Quando saíamos às compras, andávamos lado a lado. Eu apressava um pouco o meu passo, e ele retardava o seu. Fazíamos tantos planos juntos! Certas situações embaraçosas até nos divertiam. Comemorávamos juntos nossas conquistas e refazíamos nossos planos, buscando aprender com nossos fracassos. Acertamos e erramos juntos tantas vezes! Por que será que esse meu marido se foi e deixou outro em seu lugar?
Faz algum tempo que me levantei, uns trinta minutos, talvez. Peguei o meu bloquinho de anotações, lápis e, com auxílio de minha eficaz lanterna, estou escrevendo as palavras que você está lendo agora. Precisava escrevê-las, afinal, é madrugada e não tenho, no momento, com quem desabafar sobre essa questão. As amigas com quem conversava na tarde de ontem se foram com os seus maridos antes do anoitecer.
Repentinamente me veio à cabeça uma ideia meio tonta: e se amanhã eu telefonar para as minhas amigas e todas elas me confidenciarem que essa mesma coisa aconteceu com elas? Que descobriram assim, de repente, que seus maridos também foram trocados por outros bem diferentes dos originais? 
Neste instante, ouvi um ronco comprido e alto. Voltei-me feliz em direção ao leito de casal de nossa casa de praia. Senti-me contente porque reconhecia muito bem aquela maneira desastrada de roncar. Acreditei que provinha do homem com quem casei. Repousei os olhos sobre o estranho que dormia profundamente. Exteriormente, até se parecia em algumas coisas com o meu marido; contudo, apesar das semelhanças, não era o mesmo. A esse novo homem, que dorme aconchegado sob nossos lençóis, faltam ouvidos e tempo para me escutar. Falta romantismo, e sobram queixas e teimosias. O roncado que eu ouço é o mesmo, mas o olhar apaixonado do antigo, esse novo homem não consegue imitar. E eu não sei o que fazer para trazer de volta o outro homem – o homem que eu amava.



Fonte: Margarete Solange.
Ninguém é Feliz sem Problemas.
Fundação Vingt-un Rosado, 2009.
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Obra premiada no concurso literário
escritor Norte-riograndense:
Projeto Rota Batida III.
Fundação Mossoroense
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