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sábado, 23 de novembro de 2013

Não entendo...

Crônica de Clarice Lispector

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector
A descoberta do Mundo: Crônicas,
Editora Rocco, 2008,  p. 178

Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 na República popular da Ucrânia e Morreu aos 56 anos no Rio de Janeiro. Começou a escrever logo que aprendeu a ler. Na infância morou e Recife, por isso considerava-se pernambucana. Falava vários idiomas, dentre: francês e inglês. No ambiente domiciliar falava o idioma materno.