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domingo, 4 de abril de 2010

MENINOS MAUS

Conto de Margarete Solange


Moravam numa favela vizinha a um bairro nobre da cidade. Gostavam de aventuras, o perigo os fascinava. Costumavam brincar por lugares acidentados: altos, sujos e perigosos. Raras vezes eram vistos com aparência limpa, trajando roupas decentes. Viviam soltos, sem disciplina, brigando pelas ruas.
       Alguns se apresentavam nos estacionamentos pedindo um dinheirinho em troca de lavarem para-brisa ou vigiarem os carros. Porém, de que espécie de perigos poderiam, uns moleques magros e desnutridos como eles, proteger os automóveis, senão deles próprios? Havia, ainda, os que visitavam os locais onde depositavam o lixo da cidade, a fim de catarem objetos que podiam ser ainda aproveitados. Alguns chegavam até a comer os alimentos que encontravam misturados às escórias.
         As gangues da “Favela Nova” eram formadas por garotos de pouca idade, os mais velhos podiam ter em média de doze ou, no máximo, treze anos. Na verdade, eles ainda não tinham a mente totalmente voltada para o mal. A finalidade principal dos meninos era provocar uns aos outros com palavrões, e brigarem entres si para decidirem quais eram os mais fortes e mais espertos. A gangue dos “Meninos Maus” era a mais temida, porque sempre vencia as brigas graças à força de Cláudio, conhecido pela alcunha de “Fominha”, e a Cosme, a quem chamavam de “Tampinha”.
Cláudio, o maior de todos, era considerado estúpido pelos companheiros por não ter coragem de fazer o mal. Cursava ainda a segunda série e mal sabia ler e escrever. Tinha uma fome insaciável.
Tampinha, apesar de ser o mais velho da turma, era baixinho e magro, porém muito astuto. De sua mente provinham as ideias mais audaciosas. Considerava-se o cabeça de sua gangue. Abandonou a escola na época em que fazia a terceira série; sabia ler, escrever, e era muito esperto em matemática.
Costumavam reunir-se no telhado de um velho prédio abandonado que ficava num dos bairros vizinhos. Naquela sexta-feira, Fominha foi o primeiro que chegou ao local combinado. Em seguida, apareceu Tampinha, já com cara de que tramava alguma desordem.
– Tô sabendo viu, Fominha...
– Tá sabendo o quê?
– Vi quando você empurrou Felipe daqui de cima. Eu tava escondido ali atrás e vi tudo... fui lá embaixo e vi que ele tá mortinho da silva.
– Eu mermo num fiz isso, não. Nem vi o Felipe hoje... – falou Fominha com voz cantada, carregada de sotaque nordestino.
Tampinha aproximou-se da parede baixa que rodeava a fachada do prédio e olhou para baixo. Fominha o acompanhou e demonstrou surpresa ao ver o pequeno Felipe morto, ensanguentado e estatelado pela queda.
– Aquele lá é o Felipe?
– Tá querendo me tapear, é cara?... vi que você empurrou ele, e acho melhor a gente sair daqui logo, senão vou levar a culpa também... – fitou o companheiro com olhar matreiro – Em troca do meu silêncio você vai ter que ser meu guarda-costas.
Como o companheiro sequer sabia qual a função de um guarda-costas, o chantagista encarregou-se de explicar-lhe detalhadamente, já com ares de dono da situação. Tendo um menino forte e grandão à disposição, poderia realizar todas as suas peripécias, frutos de sua mente astuta.
– Você é um mentiroso, Tampinha!... acabei de chegar! Quem sabe foi um acidente... acho que Felipe foi inventar de andar em cima da parede e caiu lá embaixo...
– Caiu, nada! – gritou Cosme para intimidar o companheiro – Felipe era pequeno, mas era esperto... confesse, cara, é melhor pra você... eu vi tudo... e você mesmo vivia dizendo que não gostava dele...
– Num gostava mermo... mas eu nunca que ia ter coragem de matar o coitado.
Os dois meninos discutiram alto, até que Cláudio, o fominha, perdeu a paciência e avançou para cima do adversário. Na verdade, fez o que pôde para adiar a briga, esperando que os outros companheiros chegassem e o ajudassem a por um fim à discussão, sem que ele tivesse que apelar para a violência. Afinal, não se sentia bem batendo em meninos menores que ele.
Os minutos passavam, e a turma não aparecia. E nem poderiam, visto que o astuto Cosme não combinou, com nenhum outro, aquela reunião.
– Se eu quiser, faço você ser expulso da gangue, seu bochechudo palerma... – ameaçou Tampinha, magrelo raquítico, cuja força estava na língua e na astúcia. – Seu assassino covarde! Assassino!
– Num sou assassino, não... – avançou em direção ao companheiro e deu-lhe um empurrão fazendo-o cair sentado. – vai ver foi você mermo qui matou Felipe...– berrou Cláudio já sem paciência, vermelho de raiva – E se vocês me expulsari da turma dos “Meninos Maus”, eu passo pru lado dos outrus meninu e bato em vocês tudinho... E vou dar logo uma surra em você, pra você nunca mais chamar eu de assassino – fechou o punho e, enfurecido, avançou trincando os dentes. 
       Ágil como um gato, Tampinha levantou-se e pôs-se ao lado do outro garoto, fazendo ginga de malandro esperto. Confessou friamente que ele próprio sequestrou e matou Felipe, batendo-lhe na cabeça com uma pedra de paralelepípedo. Depois, o atirou do alto do velho prédio, e esperou que o companheiro chegasse para poder incriminá-lo. Falava com ares de quem se sentia orgulhoso de si mesmo. Limpou a poeira das mãos no calção já marrom de tanta sujeira, e olhando por cima da parede, contemplou a sua vítima na calçada do prédio abandonado.
Cláudio, “o Fominha”, apavorado com a crueldade de seu companheiro, deu-lhe as costas e se foi, decidido a abandonar definitivamente a malandragem. Deixou de ser visto com os outros meninos vadiando pelas ruas; não tinha vocação para o mal.
 Tampinha fez o seu caminho de volta em direção à “Favela Nova”, assoviando, balançando os ombros de um lado para outro. Ao chegar em frente à casa da menina loura, de voz fina e jeito manhoso, que lhe virava o rosto ou fazia-lhe caretas sempre que o via passando, encostou-se junto à cerca e, vendo-a brincando no pátio sentada sobre a areia, gritou: 
– Ei, menina! – a garota levantou a cabeça, olhou em sua direção fitando-o com desagrado. – Aquele gatinho branquinho, chamado Felipe é seu?... – ela balançou a cabeça confirmando a pergunta e Cosme, sem demora, prosseguiu falando com voz mansa, tentando aparentar ser um vizinho bonzinho e prestativo – pois eu vi um menino grande, um tal de Fominha, levando ele pra os lados daquele prédio ali – apontou na direção do velho edifício.
A menina não esperou para ouvir mais nada. Levantou-se rapidamente e correu em direção a casa, chorando e gritando pela mãe. Fazia já algumas horas que estava sentindo a falta de seu gatinho.
Tampinha prosseguiu em seu caminho, descendo a rua com andar faceiro. Ao chegar a uma certa distância, voltou-se discretamente e, passando a mão pelos cabelos esticados, endurecidos pela sujeira, olhou de soslaio e sorriu matreiro. Voltaria no dia seguinte e, mostrando-se cheio de boas intenções, perguntaria à menina loura o que havia acontecido com seu gato Felipe.

Janeiro, 1997


Fotografia de Margleice Pimenta 


Fonte: Margarete Solange. 
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e 
outros contos.
Santos Editora, 2000.
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6 comentários:

  1. Muito bom,graças a Deus que era um gato,já estava ficando preocupada com nossa escritora.Pesnsei:Meu Deus,Margarete tá virando uma escritora assassina.Sei que matou,mas....
    Muit6o bom!

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  2. Esse conto me lembra as aventuras dos meninos no livro “Capitães de areia” de Jorge Amado. Muito bem bolado o conto, no final vem o alivio do leitor em saber que Felipe era um gatinho e não um menino. Ufaaa...

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  3. Ora,ora, vejam só... o tal “Tampinha” comete o assassinato cruel e a escritora é chamada de assassina! E você “dona Nadjane” deu graças a Deus porque a vítima era o pobre gatinho, que falta de consideração para com Felipe.

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  4. Também fiquei triste com meu comentário,mas,quem sabe se o gato não estava com alguma doença incurável e tampinha fez uma boa ação?

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  5. É incrível essa história de meninos de rua. Muito comovente. A gente se comove como se fosse real porque sabe que histórias como essa muitas vezes acontece.

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  6. É uma história interessante. O conto suscita o suspense, faz o leitor ficar horrorizado com as astucias e maldades do menino assassino. Por fim, vem o alívio de saber que embora o garoto tenha uma mente maquiavélica, o assassinato não foi bem como o leitor imaginava que fosse.

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