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segunda-feira, 29 de março de 2010

MARY NOBODY

Conto de Margarete Solange
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Chamava-se Maria Batista. Tinha quase trinta anos. Não tinha parente influente, mas era talentosa.
Tão logo concluiu o seu primeiro romance, começou a peregrinação pelas editoras, tentando conseguir que alguém lesse a sua obra e a indicasse para publicação. Era inútil. Algumas vezes a desanimavam por causa da quantidade de páginas escritas. Outras vezes, sugeriam que arranjasse um pseudônimo, ou esperasse ficar mais velha para adquirir mais experiências, e assim por diante. O fato é que, em nenhum lugar por onde passou, alguém se dispôs a ler uma página sequer do que ela havia escrito.
Por fim, resolveu insistir numa editora indicada por um colega que tinha conseguido publicar, por ela, vários livros de poesias. Para ele, a idade não pareceu problema algum, tinha dezenove anos o rapazinho. O seu estilo era, sabe aquele tipo de desabafos bem particulares, que não interessa ao leitor maduro? Pois eram assim as suas “poesias”. Mas como tinha um nome bonito, um sobrenome de gente influente, bastava querer, e os seus trabalhos eram publicados, sem demora. Tão ingênuo era que garantiu à colega que o pessoal da editora era superbacana; precisava tão somente se apresentar lá com o trabalho datilografado, e não enfrentaria dificuldade alguma. Bom, lá se foi Maria tentar mais uma vez.
Não conseguiu falar com o “chefão”, mas falou com alguém que também tinha poder para decidir. O final da conversa foi mais ou menos assim; digo mais ou menos, porque quando fico indignada com alguma coisa, ao passá-la adiante, costumo exagerar. As pessoas gostam de ouvir exageros, principalmente se os acontecimentos são trágicos ou cômicos. 
– ...Mas minha filha, veja bem... não!... Pense comigo: Maria Batista? Já não cai bem para uma escritora se chamar Maria e ainda mais o sobrenome Batista. Vá pra casa, invente um pseudônimo e depois volte pra gente conversar.
Saindo do gabinete desse, Maria resolveu tentar um outro também responsável pelo setor de publicação. Como a conversa foi quase a mesma, basta registrar novamente apenas o finalzinho:
– É... a capa tá... bonitinha – colocou o livro diante dos olhos girando-o até que ficasse de cabeça para baixo. – Foi você mesma quem desenhou? Muito criativa... É, parece talentosa mas... Veja bem, as cores, o visual, o título da obra, tá tudo bem arrumadinho, mas o que está tirando a harmonia aqui é o nome da autora. Que tal inventar um sobrenome estrangeiro?...
Entregou o livro a Maria, levantou-se, bateu-lhe levemente no ombro, a fim de que a moça entendesse que o assunto estava encerrado.
– Olhe, vou lhe dar um conselho: amadureça mais a sua ideia. Você ainda é muito jovem. Um escritor pra ser bom mesmo tem que ter experiências. Quanto mais velho o escritor for, melhor, entende? Você só tem vinte e poucos anos, ainda é uma criança...
Essa, Maria não suportou. Pôs-se de pé bem perto do bigodão do homem e falou já sem calma:
– Afinal, o senhor me diga quantos fios de cabelos brancos um escritor precisa pra que resolvam lhe dar crédito? Gostaria de saber, só assim sairei daqui direto para um cabeleireiro para mudar o visual.
Não deu outra, o homem ficou todo ofendido com o atrevimento de Maria e jogou-lhe na cara que, desde o principio, percebera que ela não tinha talento algum, era tão somente uma adolescente sem experiência de vida.
Sete meses depois, Maria estava de volta à mesma editora. Usava uns óculos à lá John Lennon e descoloriu os cabelos, deixando-os brancos como a lã das ovelhas. Por falta de idade, não iria mais deixar de publicar o seu romance.
Perceba como a conversa foi diferente, desta vez:
– Bom, vovó. É que o povo gosta mesmo é de novela, de filme. Hoje em dia ninguém lê mais, não. Por que a senhora também, em vez de ficar perdendo tempo com bobagens, não vai fazer outra coisa mais útil?
A falsa velhinha, muito bem preparada e eloquente, pôs-se a argumentar sobre a importância dos livros e da leitura para a vida das pessoas. Dava para perceber que a velha era bem informada, mas o homem nem atentou para isso, queria mesmo era deixar de ser importunado. 
– Tá bem vovó, vamos fazer o seguinte: tente resumir esse romance, tá muito volumoso, quantas páginas ele tem? – deu uma olhadela na última página. – 215! Pois é, ninguém lê um livro de quase trezentas páginas... Basta umas 100, por aí.
No momento em que Maria tentou argumentar que, se resumisse a sua obra, poderia até tirar-lhe o sentido, o homem disse que não tinha problema nenhum, as pessoas nem iriam notar. O importante era ser fininho para encorajar as pessoas a ler. E ainda disse mais que não precisava ter pressa, ela podia resumi-lo bem devagar, pois estava já bem velha e, se deixasse para publicá-lo depois que morresse, seria até melhor, porque um escritor fica mais valorizado depois que morre.
Maria viveu com tanta convicção o personagem da velhinha que quase enfartou de tanta contrariedade que teve. Ora, quem já viu tamanho descaso?
Dois anos se passaram, até que decidiu retornar a essa mesma editora para fazer uma outra tentativa. Para isso, precisou da ajuda de uma amiga que também era boa em representar. Pintou os cabelos de louro extravagante, pôs nos olhos um par de lentes azuis e, assim, se apresentaram na recepção. Desta vez, Maria fazia-se passar por uma estrangeira que viera morar no Brasil.
Rapidamente as portas se abriram. Ofereceram-lhes chá, café e água mineral. Os funcionários que transitavam pelos corredores, gentilmente ofereciam os seus préstimos. Em pouco tempo, Maria tornou-se o centro das atenções e, assim, foi enviada diretamente ao editor-chefe. 
A moça estava usando o nome de Mary Nobody e levava consigo, além do romance, um conto escrito em inglês, com a devida tradução para o português. O conteúdo do conto não era importante naquele momento, bastava apenas que acreditassem que ela era estrangeira. Não podia cruzar os braços, tinha que tentar de todas as maneiras. Afinal, sabe-se que alguns supervalorizam o que vem de fora ao passo que deveriam apostar um pouco mais no talento nacional. 
Meia hora depois, a metade dos funcionários da editora já tinha lido o conto da “estrangeira”. E como a “tradutora” garantiu que o romance era bem melhor, mesmo sem o terem lido, já passavam adiante a informação de que a desconhecida era uma excelente romancista.
Para dar mais realismo à façanha, a amiga anunciou que Mary não entendia nada do nosso português. Assim, sempre que as pessoas falavam com a Maria, ela servia de intérprete. Mais divertido não poderia ser. Se não conseguisse publicar o seu livro desta vez, pelo menos teria material para escrever um outro. 
    No fim da tarde, depois de terem satisfeito a muitos curiosos que queriam treinar o seu inglês com a escritora, estavam de saída, com a certeza de que o romance seria publicado o mais rápido possível. Certa de que o editor-chefe não entendia nada de inglês, Maria sentiu-se muito à vontade para diverti-se à custa dele. Na hora de despedir-se, disse-lhe, sorridente, enquanto apertavam as mãos: 
      – I have been here many times you fool and you didn’t publish my novel. Now I have returned and you have solved my problem because you have thought I am foreigner, but the truth is that I am a Brazilian just like you, with a great difference: I am smart and you are just a donkey in pants[1].
Como a amiga não podia dar-lhe uma tradução fiel, improvisou as seguintes palavras.
– Ela diz que gostou muito do povo brasileiro... que aqui tem muita gente de talento e que vocês deveriam dar mais valor aos escritores nacionais.
– Eu não entendo muito de inglês, não, mas se não me engano, ela falou o nome calças...
– Ah! É verdade... ela disse que gostou muito de suas calças.
Foi aí que o chefe, envaidecido, resolveu ensaiar o agradecimento na língua da visitante.
– Thank you very much.[2]
– Not at all, you donkey in pants.[3]
A tradutora, esforçando-se para não deixar escapar uma gargalhada, comentou: “Ela realmente gostou de suas calças”.
Três meses depois, a tiragem estava pronta: dez mil exemplares, sem que Maria tivesse gastado um centavo de seu bolso; quer dizer, gastar, ela gastou, com as lentes e a pintura do cabelo, e coisas desse tipo.
Na hora de despachar os livros, o editor-chefe veio pessoalmente fazer-lhe a entrega. Estranhou quando viu o nome Maria Batista estampado na capa do romance, ao invés de Mary Nobody. A explicação dada pela tradutora foi a seguinte: Mary quis fazer uma homenagem ao Brasil adotando um pseudônimo bem brasileirinho. 
A partir de então, Maria Batista passou a ser um ótimo nome para uma escritora. Por fim, o chefe despediu-se da senhorita Nobody com beijinhos e, querendo agradá-la de todas as maneiras, entregou-lhe um “presentinho” já cheio de saudade. E imagina o que havia dentro do embrulho que Maria recebeu? Não imagina?! Pois tão logo nossa heroína teve o presente em suas mãos, deduziu, de imediato, do que se tratava: eram as calças que o homem usava por ocasião da primeira entrevista e que, segundo a tradutora, ela havia apreciado por demais.
É... foi assim que a carioca Maria Batista iniciou sua carreira literária. Hoje ela é nacionalmente conhecida por seu talento e por sua astúcia também.

*     *     *



[1] Eu vim aqui várias vezes, seu tolo, e você não publicou o meu romance. Agora eu volto e você resolve o meu problema porque pensa que sou estrangeira. Mas, a verdade é que eu sou brasileira como você, com uma grande diferença: eu sou inteligente, e você é somente um jumento de calças.
[2] Muitíssimo obrigado.[2]
[3] Não há de que, seu jumento de calças.


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Fonte 1: Margarete Solange. 
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos
 Santos Editora, 2000.
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Fonte 2:  Margarete Solange, 
Ninguém é Feliz sem Problemas e outros contos*
Fundação Vingt-un Rosado, 2009.

Nota
*Obra premiada no concurso literário,  escritor Norte-riograndense:
Projeto Rota Batida III. Fundação Vingt-un Rosado.

Com base na história de Malba Tahan e outros escritores dos quais as a autora também faz parte, surgiu o conto Mary Nobody. Essa coisa de ser reconhecido depois que morre não tem lá muita graça. Escritor sofre!
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5 comentários:

  1. Brasileiro é "bixo bexta", se vai pra outro país, só arruma emprego de lavador de pratos, mas qualquer um pé rapado que vem pra cá é turista gringo e o agravante maior: Compra muamba falsificada made in paraguai e diz: ai é importado...

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  2. Concordo com Joseneide,ainda bem que nossa autora não foi trabalhar fora,inglês fala perfeito,já pensou morando no exterior um tempo e voltar assim.Deus é mais!

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  3. Legal. Gostei. É desse jeito que as coisas funcionam.

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  4. Muito divertido. Essa Mary Nobody foi muito intelingente, eu teria feito a mesma coisa no lugar dela.

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  5. É, não é nada legal essa coisa do escritor só ser lido ou reconhecido depois que morre. É interessante saber a opinião dos leitores sobre suas obras enquanto estiver vivo. Mas infelizmente se investe mais em futilidades de que em livros.

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