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sábado, 27 de março de 2010

PREFÁCIO DE JOSÉ ROBERTO BARBOSA

Ninguém é Feliz sem Problemas.

Obra da autora Margarete Solange
premiada no concurso literário
"Escritor Norte-riograndense",
Projeto Rota Batida III.
Fundação Mossoroense
em dezembro de 2008..


Quando convidado a prefaciar o livro que o leitor ou leitora tem agora em mãos, não hesitei, pois sabia que sua leitura me oportunizaria momentos aprazíveis. Conheço Margarete há vários anos e seu apurado senso de humor, característica que geralmente repercute em seus escritos. Esperava encontrar uma série de contos cômicos que descreveriam as peripécias da existência humana, as jocosidades que a vida nos proporciona. Minhas expectativas, de certo modo, não foram frustradas, tive a oportunidade de dar algumas risadas, até mesmo da morte, em Na vida e na morte. Durante a leitura, veio-me, à mente, a célebre frase de Bernard Shaw, argumentando que “a vida é curta demais para ser levada à sério”.
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Os contos de Margarete, no entanto, não se reduzem ao cômico, na verdade, admira-me a capacidade que a autora mostra de trilhar entre um gênero e outro, se é que é possível fazer distinção entre gêneros, já que todos eles estão imbricados. Cada narrativa está repleta de casos que vão do trágico ao cômico num piscar de olhos. Dizem que a vida imita a arte, ou, talvez, seja o inverso, ou quem sabe, os dois ao mesmo tempo. De modo que é perfeitamente compreensível que um dos contos tenha por título Ninguém é feliz sem problemas. É nesse particular que Margarete me surpreendeu, ela demonstrou uma maturidade peculiar ao abordar temas sérios como o preconceito em relação à pobreza, aos julgamentos que a sociedade faz quanto aos padrões de beleza, e mesmo a tudo aquilo que é nacional, supervalorizando o estrangeiro, particularmente quando vem da outra América.
No conto Mary Nobody, a escritora revela as dificuldades pelas quais passa alguém que se propõe a publicar um livro, ressaltando, sobretudo, os entraves de ser um autor ou autora brasileira, num país ainda pouco afeito à leitura, especialmente de textos literários e que costuma divulgar livros estrangeiros com pompas e alardes. A crítica de Margarete a esse posicionamento ideológico é bem fundada, especialmente porque vem de alguém que, além de escritora, é uma exímia professora de inglês. As incompreensões pelas quais Maria Batista, a Mary Nobody, se depara e a maneira como ela sobressai às limitações impostas para a publicação do seu livro, acaba por fazer uma análise sociológica do esforço empreendido pelos escritores brasileiros. Além desses problemas, ainda enfrenta a crítica, que, em alguns casos, julga a produção literária a partir de critérios subjetivos de literariedade, que funcionam, ainda que implicitamente, como instrumento de repressão à criatividade.
No contexto atual, marcado pelas discussões infindas a respeito do papel da gramática no ensino de línguas e na produção literária, Margarete também não deixa esse assunto passar despercebido. A vírgula, em um dos contos, é escolhida como representante dos percalços pelos quais os escritores são obrigados a conviver no processo de construção textual. O personagem, um advogado aposentado que faz opção pelo ofício literário, passa horas diante do seu texto, buscando, narcisicamente, a melhor forma de virgular o seu escrito, desejo sempre inalcançado. Enquanto seus colegas têm problemas de família, ele é um homem feliz, quer dizer, quase, sua frustração é a indefinição sobre onde pôr a vírgula. Enquanto lia esse conto, lembrei-me de uma crônica fabulosa de Rubem Alves, intitulada Sobre Dicionários e Necrotérios. Nela, o escritor responde àqueles que lhe enviam cartas destacando seus “erros” gramaticais. Ao final, aludindo à poesia de Manuel de Barros, defende a vivacidade e a dinamicidade da língua, em oposição à língua morta das gramáticas e dicionários.
Essas são apenas algumas das muitas temáticas abordadas por Margarete em sua coletânea de contos. O leitor ou leitora terá, nas páginas a seguir, a oportunidade de divertir-se com as peripécias das personagens do seu livro. Mas esteja preparado, a autora é uma mulher de posicionamento crítico, e, por isso, em determinados momentos, como no conto Filhos da Pobreza, será possível que o riso dê lugar ao pranto, ou, quem sabe, à indignação. Os contos, em sua diversidade de temas, formam um mosaico da vida, estão repletos de múltiplos olhares, textos e intertextos, discursos e contradiscursos.
No contexto dessa diversidade polifônica, e num mundo marcado pela cultura da imagem, ter a oportunidade de indicar mais um livro, e esse no campo da palavra literária, é algo que, sinceramente, muito me apraz. Especialmente em se tratando dessa autora, alguém apaixonada pelo que faz, que acredita na arte, por isso, seu escrito esbanja tanto prazer em sua tessitura. Mas para não mais me alongar, convido o caro leitor ou leitora a adentrar o universo criativo que emana da capciosa imaginação dessa escritora que, aos poucos, vem adquirindo o justo respeito daqueles que se aproximam dos seus textos.
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JOSÉ ROBERTO BARBOSA
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Licenciado em Letras com habilitação
em língua e literatura anglo-americana,
Mestre em Lingüística Aplicada
e Doutor em Lingüística.
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Fonte: Margarete Solange.
Ninguém é Feliz sem Problemas.
Fundação Vingt-un Rosado, 2009..
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7 comentários:

  1. Escreve bem, José Roberto. Prefácio altamente, espetacular.

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  2. Parabéns ao autor do prefácio, muito bem escrito.

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  3. José ñ teve trabalho de escrever este prefácio,pois a escritora é muito boa.José Roberto parabéns por ter sido escolhido.

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  4. Parabéns ao ilustre, José Roberto pelo excelente prefácio.

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  5. Sou grata ao professor Dr. José Roberto pelo magnífico prefácio que gentilmente escreveu para meu livro “Ninguém é Feliz sem Problemas”. Aproveito para dizer-lhe que o comparo ao homem mencionado no Salmo primeiro, uma vez que ele sempre prospera em tudo que faz.

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  6. Bonitas palavras de um sábio professor. Parabéns, professor José Roberto. Tem minha admiração.

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  7. É isso aí, prof José Roberto, o senhor fala bem pra caramba, oh homem inteligente!

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