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sábado, 27 de março de 2010

MELISSA

Conto de Margarete Solange
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Era um sábado. Eu estava muito triste. Tinha acabado de chegar de uma gráfica onde tinha ido pedir o orçamento referente à publicação de meus livros. Estava pensando em fazer um empréstimo para mandar fazer pelos menos dois deles. Queria realizar o meu sonho, que afinal não era tão extraordinário assim. Todavia, cada vez que eu chegava perto, ele afastava-se de mim, fazendo-se inalcançável. 
        Comecei a resmungar por ter de percorrer caminhos tão longos para alcançar meus objetivos. Neste momento, o telefone tocou, atendi quase sem disfarçar o tom irritadiço de minha voz. Estava com raiva de mim mesma e do mundo inteiro.
Sobrevinham-me problemas vindo de todos os lados: crise financeira, salário baixíssimo, consertos para fazer na casa e nos móveis, filhos arranjando encrenca a todo instante. Enfim, tudo parecia estar fora do lugar na minha vida.
        Do outro lado da linha, falava a filha de dona Elda. Essa senhora sentia-se atormentada por muitos males, e sempre que piorava, enviava-me um recado, pedindo-me que fosse vê-la. Eu era, para ela, uma espécie de enfermeira espiritual. Primeiro eu lhe ouvia em silêncio os queixumes; quando ela findava, dizia-lhe palavras de otimismo e esperança. Costumava cantar para ela hinos alegres, lia também alguns trechos da Bíblia Sagrada e, depois, encerrava com uma oração na qual pedia a Deus que lhe concedesse saúde. Ela garantia que melhorava com as minhas visitas, e isso me deixava feliz; eu pensava comigo mesma: pelo menos para essa atribulada viúva estou sendo útil.
       Costumava prontamente atender aos seus chamados, mas, no momento, eu não estava conseguindo ajudar nem a mim mesma, como poderia, então, levar alento àquela senhora carente?
Logo eu, que tento ajudar os outros a vencer a depressão, estava deprimida, precisando de alguém para me ouvir e compreender a razão do meu enfado. Se nós estamos sensíveis, magoados, tudo nos atinge. Infelizmente, esses momentos de tribulações parecem gigantescos, ao passo que os momentos de refrigérios mostram-se tão raros e passageiros.
Aprontei-me devagar. Tinha que ir ver a minha velhinha, não podia dar-lhe esse desgosto. Eu só precisava sentar ao lado dela e deixá-la desabafar suas dores, seus queixumes.
Bati à porta, ela respondeu da sala mandando-me entrar. Estava péssima, deitada, quieta, não podia nem se virar em minha direção. Cumprimentei-a, pus o tamborete junto à rede na qual ela estava, e limitei-me a ouvir-lhe a voz débil, chorosa. 
Assim que ela encerrasse suas falas, o que eu teria para lhe dizer? Que tivesse ânimo, pois tudo iria ficar bem? Como eu iria dar-lhe esperanças se eu mesma estava sentindo-me desesperançada? Lembrava-me dos hinos que cantava para ela ouvir: “Quem está alegre, cante louvores”, diz a Bíblia; porém, na minha tristeza, achei melhor não cantar, assim a pouparia de perceber o meu descontentamento.
        Estava muito silenciosa ouvindo os queixumes de minha paciente, quando subitamente duas mãozinhas seguraram a cortina que o vento jogava pra lá e pra cá, e logo pude ver uma carinha sapeca me espionando. Olhou-me e fugiu rapidamente como uma coelhinha assustada.
       Melissa era uma garotinha de seis anos de idade que morava numa Casa de Passagem, uma espécie de orfanato onde se recolhem crianças carentes. Uma das filhas da senhora Elda trabalhava lá. Vez por outra a moça conseguia autorização do juiz para trazer a pequenina a passar o final de semana com eles.
         – Melissa... – chamei-a.
Como não obtive resposta, continuei chamando-a. Percebendo que não atenderia ao meu chamado, dona Elda, com certo esforço, ergueu a voz para me auxiliar. Desta vez, a menina apresentou-se no portal que dividia sala e quarto. Sorri para ela e convidei-a para sentar ao meu lado.
Fiz algumas perguntas sobre a sua vida. Fiquei sabendo que já frequentava uma escolinha, porém ainda não sabia ler. Gostava de brincar e de assistir televisão. Entretanto, onde morava frequentar a sala de TV era permitido somente às crianças de mais idade. Visavam, com esse procedimento, proteger as crianças menores dos conflitos com as maiores.
Melissa era muito meiga. Percebi que estava gostando de estar sentada coladinha a mim, enlaçada pelo meu braço. Era pequenina e franzina, mas era bem esperta, sabia conversar com desenvoltura.
Perguntei-lhe se tinha um sonho, algo que gostaria muito que acontecesse. Ela girava a cabeça de um lado para outro, com parte dos dedos indicador e polegar dentro da boca, sem me dar nenhuma resposta. Repeti várias vezes a pergunta, porque achava que não tinha me compreendido direito. Por fim, retirou os dedos da boca e declarou com voz firme:
– Quero ser professora!
Fiquei surpresa. Esperava que ela dissesse que gostaria de ganhar uma boneca ou outro brinquedo qualquer. Acredito que, inconscientemente, eu desejava que ela tivesse um sonho que eu mesma pudesse ajudá-la a realizar.
O que seria da vida sem os sonhos, não é verdade? Temos que continuar vivendo e sonhando, não importa se esses sonhos são possíveis ou impossíveis...
Ser professora era um dos meus sonhos de criança. Era algo que eu desejava ardentemente. Nas minhas brincadeiras de escolinha, eu ensinava as crianças menores a ler e escrever. Sentia-me realizada ao vê-las aprendendo de verdade. Recebia elogios por causa disso. Os adultos diziam que eu tinha mesmo vocação.
Reformulei minha pergunta. Expliquei-lhe que ser professora era um sonho que ela queria realizar quando crescesse, mas eu gostaria de saber se ela tinha um sonho que desejava que acontecesse logo, enquanto ela era ainda pequenina. Desta vez, ela não tardou muito a me responder:
– Quero assistir televisão no Natal.
Ao ouvir-lhe as palavras, senti vergonha de mim mesma: tão insatisfeita e magoada só porque ultimamente as coisas não davam muito certo para mim. Estava ansiosa demais diante de situações que talvez fossem apenas crises passageiras. O meu sofrer não era nada comparado ao daquela menininha sem lar.
Os pais de Melissa se separaram, e a sua mãe ficou sem ter onde morar; assim sendo, teve que entregá-la à Casa de Passagem. Ela vivia lá para escapar da fome, da vida nas ruas, mas mãe dela não consentia que fosse adotada.
Pobre criança! Assistir TV no Natal não seria o seu grande sonho se ela tivesse um lar que fosse seu realmente. Ela não compreendia ainda, mas sua dor era bem maior que todas as minhas dores juntas.
Olhei através da porta aberta e percebi que o sol estava partindo. Quando eu era criança, o pôr do sol indicava o fim de nossas brincadeiras, porque era hora de tomar banho, e não podíamos nos sujar mais.
Perguntei quem iria ajudá-la a tomar banho, e ela disse-me que faria isso sozinha, e se foi risonha de volta para suas brincadeiras.
Mais ou menos vinte minutos depois, despedi-me de minha boa velhinha e retirei-me sem pressa. Atravessei o pátio da casa e saí pelo portãozinho de ferro. Ao caminhar pela calçada, voltei-me e olhei por cima do muro: Melissa estava no quintal brincando sentada sobre a areia, certamente não estava preocupada com nenhum dos seus sonhos naquele momento. Acenei, e ela retribuiu-me o aceno sorridente.
Nessa mesma noite, antes de dormir, chorei por minhas duas amiguinhas. Se eu pudesse ajudá-las... se eu pudesse realizar o grande sonho da vida delas, daria saúde à senhora Elda e um lar à menina Melissa, quem sabe assim eu me sentiria feliz, mesmo que não pudesse realizar meus próprios sonhos
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*    *      *

Fotografia de Irak Xavier
Fonte: Margarete Solange.
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos.
 Santos Editora: 2000.

5 comentários:

  1. Margarete,cada dia fico mais impressionada com Deus,hoje eu estava me sentindo igual a você e precisando de alguém igual a irmã Elda,daí resolvi abrir seu blog porque sabia que lá eu iria encontrar algo que me deixasse melhor,e encontrei Deus é maravilhoso.Eu recomendo a todos que estiverem passando por algo difícil que leia seus livros,tenho certeza que irão melhorar,A autora é guiada pelo melhor instrutor do universo,nosso Deus.
    Que Ele continue presenteando você com grandes contos,romances,poesias,etc.
    Parabéns!

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  2. Gostei. É um história triste mas é bonita.

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  3. snif, snif, snif. Que estória triste, me emocionei. Tudo que a menininha queria era assistir TV no Natal, um sonho tão simples, mas tão importante pra ela.

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