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sábado, 26 de junho de 2010

O LADRÃO INDISCRETO

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Conto de Margarete Solange
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Casei aos dezoito anos. O meu marido tinha quase a minha idade, ou seja, era tão jovem quanto eu. Não era um rapaz de muitas condições, por isso fomos morar numa casa distante do centro da cidade, num bairro muito tranquilo, onde às nove horas da noite quase todas as pessoas haviam se recolhido, e as luzes das casas estavam apagadas. Percebi imediatamente que iria estranhar um pouco minha nova vida e morada, uma vez que minha família era muito numerosa; consequentemente, a casa de meus pais era barulhenta. Dormíamos sempre muito tarde. Outra coisa que sabia que estranharia era com respeito à segurança. O meu pai era extremamente cuidadoso, e nossa casa era protegida por gradilhos de ferro em todas as portas e janelas. Nosso muro, muito alto, era ainda guardado por dois cães, grandes e ferozes. Os portões eram fechados por cadeados enormes, e isso nos dava uma sensação de muita segurança.
Logo que visitou a casa onde passaríamos a morar depois que nos casássemos, o meu cuidadoso pai recomendou que tratássemos de colocar gradilhos em todas as portas e janelas. Eu bem que gostaria que esses gradilhos tivessem sido colocados antes mesmo de nos mudarmos para lá, mas isso não foi possível.
Como o lugar era muito tranquilo e nossa casa mais parecia uma casa de campo, decidimos que iríamos para lá tão logo findasse a nossa festa de casamento. Dessa forma, poderíamos economizar o dinheiro da viagem e investir em outras prioridades.
Era a terceira noite de nossa lua de mel. Estávamos recolhidos, dormindo abraçados, em nosso leito, quando comecei a ouvir um barulho que vinha da sala. Pareceu-me passos leves, cuidadosos: silenciou repentinamente. Sentei-me na cama e fiquei atenta. Apesar de ser muito medrosa, teria levantado para fechar a porta do quarto se o quarto tivesse porta, mas não tinha ainda. Não demorou muito, e ouvi mais alguma coisa, o suficiente para concluir que o ladrão estava muito à vontade, vindo da sala em direção à cozinha, sem nenhuma preocupação em ser cauteloso. Assim, eu podia perfeitamente ouvi-lo vez por outra. Está se revelando de propósito, deduzi.
Não havia vizinhos bem perto, por quem pudesse chamar, aliás, nem conhecia ainda os poucos moradores daquele pacato lugar.
Na semana que estávamos fazendo nossa mudança, uma vizinha veio nos dar as boas-vindas e tratou de nos prevenir que tivéssemos cuidado, pois havia alguns ladrõezinhos pelos arredores, sempre prontos a invadir os quintais para levar roupas, frutas ou qualquer coisa que achassem à vista. Entretanto, eu nem sequer sabia em qual das casas próximas morava a gentil senhora. Além do mais, como iria pedir ajuda numa situação como essa? Deveria gritar no meio da noite, pedindo socorro, se o ladrão já havia entrado e bem poderia estar armado?
Não deveria ser muito tarde. Eu achava que os minutos passavam lentos demais, enquanto os pensamentos, em minha mente apavorada, multiplicavam-se abundantemente.
Walter despertou. Rapidamente, pus o dedo indicador sobre os lábios, fazendo-lhe sinal de que ficasse em silêncio. Logo ouviu o barulho que vinha da cozinha, então pôde ler em minha apavorada face o que estava acontecendo. O quarto não estava escuro porque havia, ao lado de nossa casa um poste que iluminava a rua, e nossas janelas tinham quadradinhos de vidro que deixavam penetrar um pouco de luz.
O ladrão parecia querer mesmo nos matar de medo, torturando-nos lentamente. Mexia numa coisa, noutra, dava um tapa na geladeira, assim como que com propósito de nos assustar. Fazia-nos ouvi-lo aproximando-se do corredor que levava até o quarto onde estávamos, aliás, o único da pequena casa. Desistia, voltando novamente para a cozinha. Estava se divertindo à nossa custa, eu pensava, em pânico. – Por que não aparece logo e acaba com essa espera?
O cretino parecia muito seguro de si, deveria saber que éramos dois jovens inexperientes, recém-casados, morando naquela casinha solitária, quase sem vizinhos pelos arredores; deveria estar certo de que não éramos capazes de fazer-lhe nenhum mal.
Minha preocupação era saber o que pretendia fazer conosco. Pegasse o que lhe interessava, o que fosse de valor para ele e fosse embora, saindo por onde entrara. Mas não, lá estava ele, fazendo ruídos de propósito. Arrepiava-me pensando quais deveriam ser suas reais intenções. Ora, se fazia questão de que soubéssemos que estava passeando sem cerimônias dentro de nossa casa, era porque deveria ter algum plano terrível...
Estávamos para lá de apavorados. Vez por outra, ao ouvirmos os movimentos do ladrão, olhávamos um para o outro com olhos arregalados; porém, a maior parte do tempo, permanecíamos de olhos vidrados em direção ao portal, esperando vê-lo surgir na penumbra. Semideitados sobre a cama, mantínhamos nossas cabeças encostadas uma na outra, e não ousávamos falar nada, com receio de que nosso torturador nos ouvisse.
Não posso calcular quanto tempo durou nossa agonia, sei que o medo era gigante e que nossos ouvidos tornaram-se tão aguçados, naquele momento de pânico, que ouvíamos os mais leves rumores feitos pelo nosso inimigo até então invisível. Cheguei a formar, mentalmente, todo o seu perfil: imaginei que seria baixo, um pouco gordo, musculoso, e que tinha o olhar malvado de um psicopata assassino.
Só havia uma coisa que podia fazer naquela hora, e foi o que fiz: enviei silenciosamente uma prece desesperada ao céu. Eu nem conseguia formular direito minha oração, por isso repetia as mesmas palavras que nada mais eram do que um pedido de socorro. O meu coração batia tão acelerado que acreditava que Walter pudesse ouvi-lo.
Finalmente, o inimigo decidiu apressar-se, vindo ao nosso encontro. Ao bater na parede da entrada do quarto, gritei, agarrando-me apavorada às costas do meu marido... Numa manobra mal feita, bateu na parede da curva que ligava o quarto ao banheiro, e caiu; mas, rapidamente, levantou voo e conseguiu chegar ao banheiro, onde foi impiedosamente assassinada por meu marido. “Ruim de manobra desse jeito, só podia ser uma mulher”, comentou o gordinho fazendo-se de engraçado dentro de seu pijama folgado, segurando o chinelo, a arma do crime, em uma das mãos.
O indiscreto ladrão que roubou a paz e a tranquilidade de nossa terceira noite de núpcias era uma ladra. Uma borboleta grande e preta que, desorientada, batia no chão e nas paredes de nossa pequena casa, tentando encontrar alguma saída.
Walter e eu nos divertimos contando esse episódio aos amigos, mas no exato momento em que ele acontecia, a coisa era diferente. O ladrão jamais existiu, é verdade, porém o medo que se apoderava de nós naquela noite, era real. Acredito que poderia muito bem ter levado um cardíaco a repousar na tumba fria.


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Fonte: Margarete Solange.
Mais Belo que o Pôr-do-Sol e outros contos.
Santos Editora, 2000.
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7 comentários:

  1. Eu é q/ já estava quase tendo um infarto de curiosidade e medo,bem que minha avó dizia q/ a curiosidade mata.Eu estou aqui imaginando o q/ esse casal passou,eu estou com o coração batendo bem mais rápido,imagine esses dois.Este final me deixou feliz e ao mesmo tempo com raiva,bem que o ladrão poderia ser de verdade e o marido fortão prenderia e o entregava a polícia.Já pensou nesta mulher?sairia contando pra todo mundo a valentia do seu esposo.
    Belo conto.

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  2. Na primeira vez que eu li esse conto tbm fikei com o coração na mão, quando agente começa a ler e imagina as cenas parece que agente tá lá vivendo a situação. É suspense mesmo, muito massa. Já aconteceu uma coisinha parecida comigo, não foi bem assustador como esse, mas bem parecido. Eu era pequena e morria de medo de ficar acordada sozinha de noite, ai na janela tinha um negocio que batia, quase morri pensando q era a mão de alguém, mas depois quando foi amanhecendo vi que era a folha do pé de bananeira q ficava perto da janela kkkkkk. Otimo conto!

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  3. Pois é Rafaela, são essas coisas assim como uma bananeira batendo na janela ou uma borboleta batendo nas paredes que um escritor dá um toque aqui, uma aumentada ali, faz todo um suspense em volta da coisa e transforma nessas histórias que você gostam de ler.

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  4. Fazia muito tempo que não lia esse conto. Quando li pela primeira vez fiquei com pena, achando que o casal ia morrer de tanto medo. Parecia uma coisa muito real, todos em pânico e eu também. Aí depois eu ri que chorei, já pensou? rsrsrs É uma história interessante. Mas já pensou se o ladrão fosse de verdade... tinha matado todo mundo ou de medo ou matado de verdade. No fim fica tudo muito engraçado.

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  5. É isso ai Marina, ainda bem que tem escritores assim com Margarete para transformar esses momentos em histórias bem interessantes.

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